PLANO B
Pela manhã, Roxy dormia desconfortavelmente em sua cama bagunçada. Com o cobertor sobre seu corpo e o braço estendido pra fora da cama, mas nada disso interrompia seu sono, a garota estava exausta.
Roxy sonhava com golfinhos e princesas encantadas. Delirava em pensamento e sorria conforme ajeitava a cabeça no travesseiro, até seu celular começar a tocar, alto e constantemente, fazendo-a levar um susto e virar o corpo, caindo da cama.
A garota soltou alguns palavrões e quando levantou, se sentou na cama e pegou o celular, que ainda tocava: - Porcaria de celular! Vou por no silencioso e voltar a dormir - pensou enquanto voltava à posição anterior, deitada e confortante.
Assim que se cobriu pôs o celular numa pequena mesinha ao lado da cama, a qual ficava seu abajur. Ela fechou os olhos, virou pro lado da parede e apertou o travesseiro contra si.
- Quer dizer, não. Melhor não, pode ser a Geri - pensou logo abrindo os olhos e encarando a parede. Roxy levantou o corpo numa rapidez eficaz e atendeu o celular, com a voz ainda sonolenta: - Alô? – disse se ajeitando na cama, cruzando as pernas e permanecendo sentada sobre elas.
– Alô, Roxy? Tô te ligando de um orelhão, ta um barulho, uma confusão - cantarolou Sean, junto a um violãozinho que Roxy pôde escutar do outro lado da linha.
- Ahn? Ta me ligando da onde? Onde você está, Sean? – Perguntou ela, esfregando a mão nos olhos.
- Esqueci o resto da música – respondeu ele, parando com o barulho do violão.
- Idiota! E eu aqui achando que fosse algo sério – Roxy fez uma pausa para dar um rápido bocejo e Sean riu: - Mas e aí, por que me ligou? Aconteceu alguma coisa? – Perguntou ela.
- Caramba, eu te acordei? Já é meio dia, pensei que ia ta acordada.
- Acordou sim, mas tudo bem. Fala o que aconteceu.
- Aconteceu nada, eu só queria te pedir pra vir aqui na garagem, nessas férias eu to fazendo nada mesmo...
- Ah, nem vai dar Sean – o interrompeu.
- Er, tudo bem então. Falou e bom sono aí – Sean deu uma risadinha sem graça.
- Não, espera! Eu vou, eu vou. Não tenho nada pra fazer e quero te ver né, besta – disse animadora, deixando Sean surpreso. Poucas vezes Roxy falava assim, tão alegremente.
- Que horas posso ir? – perguntou ela, antes dele dizer algo.
- Qualquer horário, sei lá.
- Beleza, daqui a pouco eu to aí.
- Firmeza, até mais.
- Até – despediu-se, desligando o celular e o pondo no mesmo lugar de antes, sobre a mesinha ao lado do abajur.
O tempo foi passando e Roxy continuava sentada na cama, pensando em que desculpa usaria pra pegar o celular de Sean e mandar a mensagem pra Ping.
E foi assim que ela passou à tarde: pensando em seu plano. Logo, já era de tarde, o sol estava quente e adentrava a janela do quarto, batendo sobre as costas de Roxy. Mais alguns minutos torrando no sol, e a garota finalmente levantou, seguindo para o banheiro, onde deu uma geral no visual e voltou pro quarto, abrindo a porta do guarda-roupa e vestindo as primeiras roupas que encontrou.
Pouco antes de sair, Roxy achou melhor ligar para Geri e avisar que faria o resto do plano sozinha: - Alô, Geri?
- Fala Roxyzita – respondeu com a voz animadora de sempre.
- Geri, é o seguinte, eu tô indo agora na garagem do Sean...
- Ui – Geri soltou um pequeno gemido no telefone e sorriu.
- Pára, é sério – Roxy não pôde controlar, logo riu – Continuando... Eu vou tentar pegar o celular dele agora. E depois, na festa que vai ter na casa da Molly, eu pego o celular da Ping. Então, pelo menos por enquanto, você não precisa fazer mais nada.
- Ok então. Tem certeza?
- Tenho sim. Agora eu tenho que desligar, depois a gente se fala. Tchau.
- Tchau.
Roxy desligou o celular, em seguida colocando-o no bolso, mas quando foi abrir a porta pra sair, ele tocou novamente. Ao pegar o aparelho pra atender, viu na tela quem ligava: - Ai que saco! – reclamou baixinho - Oi Ping.
- Oi querida, tudo bem? – perguntou com a sua voz cínica que Roxy tanto odiava.
- Tudo e você? Por que me ligou?
- Tô ótima, como sempre – Ping deu uma risadinha forçada e continuou:- e eu liguei pra confirmar sua presença na festa da Molly. Você vai mesmo né? Porque coitadinha, ela só tem a gente. A Molly é um tanto anti-social às vezes, não sei o que seria dela sem mim.
- É, também não sei o que seria – Roxy revirou os olhos, odiava ter que concordar com a falsidade de Ping - Mas eu vou sim a casa dela.
- Ok, ok. Agora me conta Roxy, você tem alguma novidade sobre a moda em Paris? Talvez eu viaje pra lá nas próximas férias e eu preciso ficar informada né. Você tem tantos contatos, deve saber de alguma coisa.
- Er... Ping, agora não dá pra conversar, eu tô um pouco atrasada. A gente pode falar sobre isso na festa de aniversário da Molly hoje né? Então, lá a gente conversa, beijos – despediu-se e desligou o celular antes que Ping pudesse responder.
Saiu apressada de casa, chegando quase no final da tarde na casa do amigo: - Sempre atrasada né, Roxy? – comentou Sean, rindo.
- Atrasada? Não marcamos horário nenhum – disse se jogando no sofá da garagem, como sempre fazia.
- Mas você disse “daqui a pouco to aí” e chegou aqui horas depois.
- Ei Sean, me empresta seu celular? – mudou de assunto bruscamente - O meu ta sem crédito e eu preciso falar com a Geri, é que eu combinei de ela ir à minha casa hoje e eu não vou ta lá, então tenho que avisar né – pediu, ela sabia que ele emprestaria e também sabia que qualquer coisa que acontecesse, ela seria a última pessoa de quem Sean iria desconfiar.
- Ta, eu empresto – respondeu ele, jogando o celular no colo da amiga.
- Obrigada – agradeceu com um sorriso.
Roxy levantou do sofá e caminhou direção à saída da garagem, precisava de privacidade pra fazer conforme havia planejado.
- Tá, pode ir lá pra fora, eu não queria escutar sua conversa mesmo – ironizou o garoto, olhando-a deixar o local.
Roxy apenas riu e saiu porta afora.
Procurou na agenda o número de Ping e mandou uma mensagem pra ela “Te encontro no baile às oito horas, não vou poder passar aí, bjs gata.”
Roxy contorceu a boca ao digitar a palavra “gata”, isso era repugnante demais para ela. Principalmente sendo digitado para Ping.
Ao concluir o envio da mensagem, a garota apagou o rascunho da mensagem e voltou pra dentro da garagem com o celular de Sean no ouvido, fingindo ainda falar ao telefone: - Tchau Geri, te vejo mais tarde – fingiu desligar o aparelho e o entregou nas mãos do amigo – Valeu Sean.
- Dez reais – Sean guardou o celular no bolso.
Roxy riu.
- Agora eu vou fechar a garagem, tô indo na casa da Small, quer ir? – a convidou enquanto puxava a grande e larga porta da garagem pra baixo.
- Fazer o que lá? Sua namoradinha não vai gostar de saber disso hein.
Roxy se referia a Ping quando dizia “namoradinha” e Sean sabia disso, por isso nem a respondeu.
- Quer ir ou não? – Perguntou seco.
- Vai fazer o que lá?
- Vou ver como ela tá, faz tempo que a gente não se vê – respondeu – ás vezes eu acho que a Small fugia de mim no colégio.
- Não entendi.
- Meu, ela sempre acelerava o passo quando passava do meu lado e quando me via fingia não ver. Muito estranho.
- Ah, entendi – disse lentamente – Mas ela sempre foi esquisitinha – Roxy discretamente riu.
- Dá um tempo, ela é gente boa.
- Se você ta dizendo... – Roxy seguiu para o quintal.
Sean abaixou por completo a porta da garagem e esfregou as mãos empoeiradas na calça. Ele foi até onde Roxy encontrava-se parada, pensativa.
- Pensando na morte da bezerra? – perguntou ele, sussurrando ao ouvido da amiga.
Roxy levou um susto.
- Ahn? Que bezerra o que moleque! – Roxy bateu no braço no amigo e sorriu.
- Pensando no Matt? – Sean arriscou. Ele ainda não havia engolido aquela história do amigo usar uma blusa tamanho P de marca feminina e ainda esquecê-la no elevador.
Roxy tremeu. Será que Matt havia contado tudo sobre eles a Sean? – era a pergunta que passava na mente da garota enquanto olhava com os olhos esbugalhados para o amigo parado bem a sua frente.
- Roxy? – Sean a cutucou com um graveto que havia arrancado de uma das plantas que ficava na entrada da casa.
- Ai! – exclamou a menina, colocando a mão sobre o braço – essas merdas são pontudas, não me cutuca com isso, idiota!
Sean rachou, não conseguia mais parar de rir – Foi mal. Foi mal – disse ele entre a risada.
Roxy mostrou o dedo do meio e abriu o portão da casa, saindo imediatamente.
- Espera, deixa que eu te acompanho até a virada da rua – gritou Sean, fechando o portão e correndo até Roxy.
Sean chegou perto da amiga e tentou manter o ritmo dos passos pequenos e apressados da garota.
- E aí, você não me respondeu sobre o Matt – puxou ele um assunto.
- Responder o quê? – perguntou Roxy, com o coração apertado.
- Você e ele tiveram alguma coisa aquela noite no Guarujá, não tiveram? – Sean a olhou arqueando uma sobrancelha e Roxy sorriu, fazendo parecer estúpida a pergunta do amigo.
- Não. Não aconteceu nada entre a gente – garantiu ainda sorrindo.
- Fico aliviado. Sério – Sean relaxou a expressão do rosto, parecia ter tirado um peso enorme das costas.
- Por quê? Por que aliviado? – dessa vez quem arqueou a sobrancelha fora Roxy.
- Porque o Matt ta namorando.
Roxy olhou pra rua adiante, pro nada, tentando disfarçar o impacto que aquela notícia a tinha causado.
- E você, sei lá... O Matt costuma conquistar as menininhas e depois dá dessas, finge que nada aconteceu e fica tudo bem. Eu não queria que você fosse uma dessas conquistas dele. Você é minha amiga e ele também, ia ser estranho – Sean passou a mão direita no cabelo, deslizando os dedos até a nuca. Bagunçando o cabelo. Ele sempre fazia isso depois de contar algo embaraçoso. Também ficava com uma expressão cômica no rosto.
- Ahhhh... Entendi – Roxy murmurou baixo, Sean mal pôde ouvi-la.
Eles deram mais alguns passos juntos, em silêncio. E ao chegar à esquina da segunda quadra, Sean despediu-se.
- Então, eu fico aqui. A casa da Small fica pra lá – ele apontou brevemente com a mão que antes havia passado no cabelo para a rua a direita deles.
- E eu ainda tenho muito que andar – Roxy sorriu fraco e rolou os olhos. Ela tinha que ir direto para a casa da Molly, pois já era hora da festinha de aniversário da colega.
- Boa caminhada – Sean sorriu e andou direção à rua que havia apontado – Até mais – acenou ele, já do outro lado da rua.
- Até - ela sorriu.
Roxy esperou Sean sumir entre as viradas da rua para seguir seu caminho, sentido a casa de Molly. Ela estava tão entediada com o à idéia de ter que passar algumas horas agüentando Ping, Molly e as amiguinhas falsas que elas cultivavam. Molly nem tanto, ela gostava da morena. Ela era legal, mesmo sempre tentando ser uma cópia da Ping.
Seguia andando devagar, chutando pedrinhas na calçada e esperando o tempo passar, queria se atrasar o máximo possível pra festa. Chegar quase na hora dos parabéns lhe parecia uma ótima idéia.
Enquanto andava, do outro lado da calçada avistou o Professor Rufles, andando sozinho e com pressa. Ele andava em passos curtos e apertados, com a cabeça erguida e olhar fixo na direção que ia. Roxy riu, ele era tão estranho às vezes.
Ao andar sentido ao farol e olhar em todos os sentidos antes atravessar a rua, ele viu Roxy. Ela ria suavemente.
Ele sorriu apertando o óculos de grau nos olhos e acenou pra garota que retribuiu o aceno. É inevitável, quando alguém acena pra você, a primeira coisa que você faz é olhar pra mão da pessoa e depois para a pessoa em si. E nessa olhada básica, Roxy pôde perceber que o professor não usava anel em nenhum dos dedos da mão esquerda, muito menos uma aliança: – mas ele não é casado? – questionou-se Roxy.
Rufles atravessou a rua com cautela e cumprimentou a aluna como fazia na aula. Devia ser o costume.
- Roxy! – Ele continuava com o sorriso forçado no rosto.
- Professor, você por aqui!
Os dois deram as mãos, cumprimentando-se socialmente. O professor olhava ao redor, parecia tenso e ainda com pressa.
- Tá corrido com os preparativos pro baile, professor? – perguntou Roxy, assim que ele largou a mão dela.
- Baile? – fixou um olhar espantado na garota.
- É. O baile do colégio – ela sorriu delicadamente.
- Ah, sim. E não. Eu não irei à festa de despedida do colégio – Rufles cuidadosamente ajeitou o óculos.
- Ahhh... – Roxy não havia entendido nada. Afinal, os professores até onde ela sabia eram obrigados a ir à festa do colégio.
- Tenho outros planos para o dia – explicou ele. – Agora me perdoe, mas preciso ir, Roxy.
- Certo, professor. Vai lá.
- E você vá direto pra casa.
Roxy sorriu: - Pode deixar!
Ele também sorriu e finalizou a conversa: - Tchau, até qualquer dia.
Rufles saiu andando e Roxy ao virar o corpo, dando as costas pro professor franziu a testa enquanto colocava a mão dentro do bolso largo da calça e apanha seu celular.
Enquanto isso, no parque ambiental do bairro, estava Geri a passear e Cachaça do seu lado, seguindo-a: - Cachaça, eu já falei que não vou pro baile com você – dizia a ruiva com a menor das paciências.
- Geri, pára com isso gatinha. Imagine eu e você, você e eu, juntinhos dançando no baile – insistia Cachaça, colocando uma mão sobre a barriga dele e a outra deixando erguida no ar.
E lá estava ele, dançando consigo mesmo no meio do parque.
Geri por sua vez, riu da tamanha cara de pau do garoto e procurou afastar-se rápido, fingindo não conhecê-lo.
- Qual é Geri, foge não. Rola eu e você, você e eu, ou não? – perguntou ele, a abraçando por trás.
Ela arrancou as mãos dele da sua cintura e virou o corpo, respondendo estressada: - Não adianta. Eu não vou pro baile e ainda mais com você. Sem chances Jonas.
- Ih, não me chama de Jonas. Ninguém me chama de Jonas, só a minha irmã nerd.
- Olha Jonas, na moral, eu não... – Geri teria terminado de respondê-lo se não tivesse sentindo seu celular vibrar no bolso de trás da calça apertadíssima que usava.
A garota torceu o corpo pro lado, olhando supostamente pra parte de trás da sua calça e pegando o celular.
Cachaça reparava em cada gesto que Geri fazia. Havia malicia no olhar dele.
Geri abriu o celular e ao ver que era Roxy ligando, não pensou duas vezes antes de atender.
- Roxyzita? Aconteceu alguma coisa? – atendeu já preocupada com o plano.
- Não aconteceu nada. Quer dizer, aconteceu sim. Você disse que o Professor Rufles é casado né?
- É, disse sim. Por quê?
- Você tem certeza de que ele é casado mesmo?
- Tenho, por quê? Você ta me deixando preocupada.
Cachaça se aproximou, tentando ouvir a conversa e Geri o empurrou com a mão: - Sai garoto! – exclamou histérica, deixando Roxy curiosa.
- O que tá acontecendo aí? – perguntou a roqueira.
- Nada, nada não. Só um idiota me torrando a paciência! – Geri olhou de um jeito para Cachaça, que o garoto se sentiu mal.
Ele deu três passos pra trás, tomando uma distância segura da ruiva.
- Pronto. Pode falar Roxyzita!
– Então, é que hoje eu o vi andando sozinho na rua e ele tava sem aliança. E pra completar, ele não vai ao baile. Muito estranho. Bem, eu só achei que você devia saber. Agora eu tenho que desligar. Tô em frente à casa da Molly e é melhor eu entrar logo porque já tô atrasada. Tchau.
- Nossa. Está bem então. Até – respondeu, desligando o celular.
Geri permaneceu intacta onde estava. Cruzou os braços e levou a ponta da capinha do celular até a boca. Pensativa, ficou apenas a olhar as pessoas do parque passarem por ela.
- O que ela queria? – perguntou Cachaça, fazendo Geri voltar a si.
- Não te interessa – foi grossa.
- Então você vai aceitar ir ao baile comigo? – valia à pena insistir e levar mais foras. Cachaça não tinha muitas opções de quem convidar e além do mais, Geri era seu sonho de consumo.
- Claro que não, desiste moleque! – Geri saiu andando.
Cachaça contou até dez, esperando a ruiva olhar pra trás. Mas nada aconteceu, ela continuava a andar e tomar cada vez mais distância dele. Ele pegou o óculos escuro, sempre guardado no bolso das calças folgadas que usava, e o colocou. Ajeitou o topete e correu atrás de Geri.
Já em sua casa, estava Small. De pijamas e estudando. Férias para ela não significava abandonar os estudos, muito pelo contrário. Significava mais tempo pra se dedicar aos estudos, principalmente com essa semana adiantada de folga que o colégio havia dado por causa do baile.
Small estava tão concentrada nos cálculos dos diversos livros de matemática expostos sobre a pequena escrivaninha da sala que levou um susto quando a campainha tocou.
- Droga! Deve ser a filha da vizinha querendo que eu brinque de boneca com ela de novo! – pensava, irritada.
Levantou-se da cadeira e arrastou a escrivaninha pro lado. Small ficava tão em cima dos livros, que seu corpo colava na mesinha.
Ela deixou que a campainha tocasse duas vezes antes de atender. Já estava parada na porta, mas a esperança de que sua vizinha fosse embora era maior.
A insistência da pessoa com o dedo parado sobre o botão da campainha, fez Small destrancar a porta. Entediada e neurótica.
A garota espantou-se ao ver quem era: - Sean? O que você veio fazer aqui? Melhor, como você subiu?
- Pelas escadas – acenou com a cabeça, já que suas mãos estavam ocupadas a segurar algo que cheirava muito bem e abria o apetite de qualquer pessoa. Principalmente de Small, que desde que o colégio declarou férias, vivia apenas de comidas simples e fáceis de fazer. Tudo para ela era economizar tempo para estudar pra prova da escola federal, a qual queria muito ser aceita.
Small riu: – Sean, tô falando de como subiu até aqui. Os porteiros nem me avisaram.
- Ah, eu contei que era seu aniversário e que queria te fazer uma surpresa. Todos caem nessa! - Sean piscou e Small sentiu seu coração bater, exatamente como antes. Sempre que ela o via no colégio seu coração disparava, era constrangedor. E uma felicidade sem igual acabava com toda aquela tensão das aulas.
- Só você mesmo Sean! – Small ainda ria.
Fez-se um breve silêncio.
- Então, vai me deixar aqui fora segurando esse pacote quente? – Perguntou Sean, sentindo suas mãos aquecerem junto com a sacola que enrolava o pacote de isopor que ele segurava.
- Oh, não! Desculpa. Sou tão desligada – Small coçou a sobrancelha e sem jeito passou a mão na porta de madeira, escancarando-a lentamente.
Ao virar o rosto e dar de cara com a sala desarrumada, Small puxou a porta pelo trinco, fechando-a com um estalo tenebroso.
- Você ta ocupada? Porque se estiver, eu posso voltar outra hora – disse Sean, sem entender a reação da menina.
- Não, eu não tô ocupada não. Pode ficar – respondeu – Mas é melhor ficarmos lá em baixo, no condomínio.
Small abriu a porta novamente, entrando no apartamento pela pequena fresta aberta da porta. Sean ouviu alguns barulhos de chave, deveria ser Small tentando tirar a chave da fechadura interna do apartamento.
Após uma pequena luta contra a chave emperrada na fechadura, Small finalmente saiu do apartamento com um sorriso amarelo no rosto.
- Tava presa na porta – explicou ainda sorrindo.
- Er... Você vai descer assim? – Sean a olhou da cabeça aos pés, dando uma risadinha curva.
- Assim como? – Small baixou a cabeça, olhando para si do mesmo jeito que Sean havia olhado – Oh meu Deus! – Exclamou colocando as mãos sobre as pernas, tentando impedir que o garoto a visse naquele estado.
Small não estava vestida adequadamente. Estava de pijama, um pijama curto e indiscreto como diria ela. Um conjuntinho branco enfeitado com bichinhos dóceis. Uma blusinha e um short, ambos apertados e curtos. Era a sedução aos olhos de qualquer homem.
- Eu já volto – avisou ela adentrando o apartamento às pressas.
Small fechou a porta na cara de Sean, que se manteve de pé em cima do tapete de boas vindas do lado de fora do apartamento, esperando pela volta da amiga.
Alguns minutos depois e Small voltou. Toda vestida e sem graça. Usava uma calça jeans folgada e uma camiseta larga. Não era mais uma sedução.
Sean suspirou enquanto se levantava. Com a demora da amiga, ele havia se acomodado no chão mesmo, sentando-se sobre o tapete e colocando a sacola quente que segurava em seu colo.
- Demorei? – perguntou ela o encarando com receio.
- Não. Conheço gente que demora mais pra se arrumar – respondeu ele, pensando em Missy e Roxy.
Small apenas riu. Aliás, ela ria de tudo que Sean falava, adorava o bom humor e a ironia dele.
Ela trancou a porta do apartamento por fora e ambos desceram pelas escadas.
Chegando ao térreo, Small o puxou para um canto. Eles passaram por um estreito e comprido corredor escuro que dava com o parquinho do prédio.
Era um parque infantil e pequeno, com gramado falso e brinquedos já desgastados.
Eles sentaram em um banquinho de madeira fraca e gasta, e Sean tirou da sacola o pacote que segurava.
- Hm.. Que cheiro bom! – comentou Small, faminta.
- Bem, como disse que era seu aniversário, tive que trazer algo né – Sean abriu a caixinha de isopor, deixando a vista da garota alguns deliciosos salgados de padaria.
- Parecem ótimos! – Small mordeu o canto da boca, já sentia sua barriga rugir pedindo por um daqueles salgados.
- Bom apetite! – ele colocou o pacote sobre o colo dela.
- Você não vai comer?
- Não. Tô sem fome – Sean passou a mão pela barriga definida dele.
- Ah não! Pode comer Sean, senão eu vou ficar toda envergonhada de comer sozinha – Small pegou um salgado e deu para o menino. As opções eram: comer ou comer.
E Sean riu: - Está bem.
Enquanto Small se deliciava comendo todos os salgados, Sean encostou as costas no encosto do banco e ficou a olhá-la.
- Small, o que aconteceu com você? Porque sumiu?
Small travou. Guardou na caixinha de isopor o salgado segurava nas mãos e mastigou o pedaço que estava em sua boca. Com toda lerdeza possível, esperando que ele mudasse de assunto.
Enfim, não foi o que aconteceu. Sean continuou a olhá-la, esperando pela resposta.
- É que eu andei estudando muito pra prova daquela escola federal que eu te falei, aí isso acabou tirando muito o meu tempo – mentiu. Na verdade Small não queria ver Sean, então ela se distraía estudando. Era como Sean havia pensado: Small estava fugindo dele.
- Entendo – Não. Ele não entendia, mas também não prolongaria aquele assunto - Mas você não pode sumir assim pô, ainda mais pra estudar. Tem que ser que nem eu, não preciso nem estudar.
- Não precisa? Nasceu sabendo tudo, foi? – os dois riram.
E assim passaram o restante da tarde, rindo e conversando. Até viram o pôr-do-sol juntos, sentados na grama falsa. O gramado era mais confortável que aquele banco duro.
Small podia passar a vida inteira ali, ao lado de Sean.
Bem, pelo menos alguém estava se divertindo, porque Roxy, ao contrário dos dois, estava odiando ficar na casa da Molly.
Havia mais ou menos sete garotas, todas sentadas no carpete do chão do quarto de Molly, formando uma roda. Falavam sobre tudo, mas nenhum assunto que interessasse a Roxy.
Vira e meche quando tinha uma folga, Roxy saía do quarto para tomar algo e respirar. Precisava de muita força de vontade pra agüentar aquelas garotas frescas e cheias de querer.
Não era bem como Roxy tinha pensado, não era uma festa enorme. Era como Ping havia dito no telefone, Molly não tinha amigos o suficiente para dar uma festa digna. Por um momento Roxy sentiu pena da colega, mas ela parecia tão feliz com aquelas poucas amigas que era impossível sentir dó dela. Havia várias comidas, a mãe da morena era muito generosa e tratava todas muito bem, sem exceções ou dependência de condições sociais.
- Então meninas, o Sean me mandou uma mensagem hoje. Avisando que não vai poder vir me buscar pro baile – contou Ping, com um ar de suspense.
E todas as garotas, tirando Roxy, levaram a mão até a boca, parecendo surpresas.
- Nossa, tadinha de você amiga! – a consolou Molly, abraçando a amiga. Já que estava sentada ao lado de Ping e Roxy.
- Mas ele me chamou de gata e disse também que me amava.
Todas sorriram orgulhosas da conquista da amiga e dessa vez, quem parecia surpresa era Roxy, olhando para Ping espantada.
- Que mentirosa! Eu não disse que a amava na mensagem! – Comentou Roxy, para si mesma em pensamento.
Ping sorriu e pegou o celular de Molly, deixando na tela do celular uma foto do Sean sem camisa: - Olhem como ele é lindo! – passou o celular pra menina que estava sentada ao lado dela, seu nome era Ângela e ela era morena. Parecia legal, mas era fútil como todas as outras no quarto.
- Que gostoso! – Ângela sorriu maliciosa, passando o celular adiante.
- Que lindo! – disse a outra garota.
- E é todo meu – Ping mal se cabia de felicidade, com todo aquele ego.
- Mas é pobre! – alfinetou a menina que estava sentada ao lado de Roxy. Ela parecia a menos fútil, embora sua voz fosse infantil e enjoada.
- Cala a boca Catarine! Mesmo assim ele continua sendo o sonho de qualquer garota – retrucou Ping, sem paciência.
- Ele é pobre? – Ângela forçou uma expressão de dó, deixando Roxy irritada.
- E daí que ele é pobre? A condição de vida de uma pessoa não altera em nada no que ela é. E se vocês querem saber, ele não é pobre. Ele é rico, até mais do que algumas de vocês aqui. Eu já viajei com ele e o amigo dele tem um apartamento lindo no Guarujá, em um prédio luxuoso e em um bairro maravilhoso – Roxy até se levantou para fazer aquele discurso.
Quando terminou de falar, a roqueira notou que havia assustado as garotas.
- Roxy, você ta bem? – Perguntou Molly.
- Er... Eu preciso de água.
- Não tem água aqui. Só na cozinha – disse Molly.
- Então eu vou lá pegar... Já volto. Podem continuar o assunto sem mim – Roxy deixou o quarto sem demora. Estava morrendo de vergonha de todos aqueles olhares focados nela.
Roxy desceu as escadas sem fazer barulho, degrau por degrau com delicadeza. Não queria chamar a atenção da mãe de Molly e muito menos das garotas. A casa da colega era enorme, um sobrado com vários quartos, vários banheiros e uma sala gigantesca.
Roxy tinha até medo de se perder naquele casarão.
Roxy chegou à sala e foi direto mexer na mochila de Ping, onde estava guardado o celular da garota. Uma das milhares de regras ridículas daquelas meninas, era em dias de festa não levarem o celular para onde iriam ficar. Elas falavam tantas bobagens e gostavam tanto de fofocar, que um celular tocando no meio da conversa era o fim do mundo. Somente a anfitriã podia fazer uso do aparelho, que no caso hoje era Molly.
A roqueira abriu a mochila da garota e pegou o aparelho, o tirando de dentro de uma capinha rosa. Ela entrou no banheiro que havia debaixo da escada, o qual era abafado e pequeno, então ligou o celular. Roxy sabia que o celular de Ping fazia um barulho chato quando era ligado, por isso o melhor era ligá-lo dentro de um lugar fechado.
Fez o mesmo que havia feito com os outros celulares, mandou uma mensagem pra Sean, que dizia: “Me espera no baile, não precisa passar aqui, porque vou me atrasar um pouco, bjs amr.”
Depois do ato, voltou pra sala e guardou o celular na capinha, o pondo na mochila do mesmo jeito que havia o tirado.
Quando ainda estava fechando o zíper, e se afastando da mochila, Molly chegou: - O que você ta fazendo, Roxy?
Roxy arregalou os olhos e num impulso olhou pra trás, fazendo vento com os cabelos.
- Nada. Tô fazendo nada. É que a Ping me pediu pra ver uma coisa na mochila dela, mas ta tudo certo. Vamos voltar pro quarto? – Sorriu inocente.
- Vamos sim que já devem ta sentindo nossa falta lá - Molly a puxou pela mão, guiando-a até o quarto.
As duas voltaram lá pra cima e continuaram com suas conversas que eram sempre sobre os mesmos assuntos.
Enquanto na casa de Missy, estava Loid: - Vai pro baile sim, Loid. Vai ser bom pra você sair um pouco e também pra você se enturmar um pouco mais com o pessoal do colégio – dizia Missy.
- Não Missy, acho melhor não. Nem gosto desses tipos de festa.
- Por favor, Loid. Eu vou precisar de você lá, ainda mais quando a Ping chegar lá com o Sean e com a Roxy.
- Ta bom. Eu vou, eu vou.
Missy deu um gritinho de felicidade e abraçou o amigo.
- Ainda bem que você vai. Você vai ver como vai ser legal, tenho certeza.
- Espero que seja mesmo. Agora melhor eu ir, já ta tarde. Daqui a pouco seu pai vai subir aqui pra me expulsar.
- Ai como é dramático! – Missy riu.
Ela o levou até a porta, a abriu e se despediu do amigo com um abração apertado e um beijo na bochecha. Loid sumiu na virada da rua e Missy entrou em casa, indo direto pra sala, falar com a sua mãe sobre que roupa usaria no baile.
A noite passou rápida para alguns, mas para Roxy, pareceu uma eternidade aturar as amigas da Molly a madrugada toda. Tanto que Roxy fora a primeira a dormir e a primeira a acordar no dia seguinte.
Quando amanheceu ela já estava de pé e vestida. Saiu antes que todas acordassem e deixou um recado com a mãe de Molly, para avisar que ela tinha um compromisso muito importante e por isso foi embora tão cedo sem se despedir.
Como não tinha ficado para o café da manhã, Roxy estava morrendo de fome.
Com aquelas garotas não se comia nunca, eram sempre dietas e dietas. Na noite anterior elas só beliscaram uns salgados sem gosto, nada demais.
A roqueira desviou do caminho de casa e entrou numa padaria conhecida do bairro, onde grande parte dos moradores locais compravam seus pães pela manhã.
Ela passou reto pela sessão de doces, pegando apenas uma bolacha e um refrigerante na geladeira do lado do balcão onde ficavam os frios.
Roxy foi para o caixa, do qual nunca imaginava encontrar com Derick, que estava na frente dela na fila: - Derick, o que ta fazendo aqui?
- Comprando pão, não ta vendo? – Respondeu, erguendo com a mão um pacote de pães.
- Grosso! – se irritou.
- Aprendi com você – Derick sorriu ironicamente e deu as costas a Roxy.
A garota soltou um ar feroz pela boca e rolou os olhos, batendo o pé no chão enquanto esperava ansiosa pela sua vez de pagar.
Derick, incomodado com o pequeno e quase impercebível barulho de impacto do sapato da garota com o piso do local, resmungou: - Dá pra parar? – sem jeito, Roxy parou de bater o pé.
- Valeu! – agradeceu ele.
- Tudo bem Derick. Não vou me estressar, eu sei que você deve ta nervoso com o baile. Afinal, é amanhã.
- Não. Realmente eu não estou. Já programei tudo. Vou pegar o terno às cinco horas na lavanderia e às sete horas passarei na casa da Missy, pra pegar ela.
- Hã? Sete horas na casa da Missy? Como assim? – Roxy mal conseguia falar.
- É. Eu e ela vamos juntos, faz tempo que combinamos isso.
- Mas a Missy não ligou pro seu celular ou mandou uma mensagem, e tal? Você tem certeza que ela vai ta pronta às sete horas?
- Não, não tenho certeza. Ainda não falei com ela e nem dá agora, minha mãe foi viajar e meu celular ficou na bolsa dela.
- Cara, como você foi deixar seu celular na bolsa da sua mãe? – Roxy parecia não acreditar no que acabara de ouvir, melhor, ela não queria acreditar.
- Deixando oras!
Roxy segurou a bolacha e o refrigerante que havia pegado em uma mão só e passou a outra no rosto, inconformada.
- Meu, ela levou o celular no dia que você passou em casa. Ela chegou logo que você saiu e me viu todo neurótico fuçando no celular. Ela disse que eu tava muito viciado em tecnologia e que ela queria falar comigo. Daí o tomou de mim e colocou na bolsa, mas acabou se esquecendo de me devolver... E o resto você já sabe – Derick assentiu com a cabeça.
- Droga! - Roxy reclamou baixinho.
- O que disse? – perguntou o garoto.
- Nada, nada.
Chegou à vez de Derick e Roxy entrou na frente do garoto.
- Desisti das compras! – disse deixando a bolacha e o refrigerante em cima do balcão do caixa.
A garota nem disse tchau ao amigo, deixou o estabelecimento às pressas.
- Era só o que faltava, agora não sei como vou fazer pro Derick não ir pegar a Missy às sete horas. Que droga, aff. – Pensava Roxy andando apressada pela rua.
Minutos depois e já em casa, no seu quarto. Roxy ligou o computador, conectando-se ao MSN.
Para sua sorte, Geri estava on-line.
‘ Roxy diz: GEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEERI!
Sua inveja faz a minha fama diz: Roxyzita! *-*
‘ Roxy diz: a sua frase do MSN ta muito engraçada ISAUHSIUAHIS
Sua inveja faz a minha fama diz: Tem que se garanti minha fia! hoho
‘ Roxy diz: SIUAHUSHAIUHSIAHS
‘ Roxy diz: Eeeeeeeeeei, fudeu tudo. O Derick perdeu o celular e não leu a mensagem que mandamos pra ele! ¬¬’ Precisamos de um plano B!
Sua inveja faz a minha fama diz: Mas não temos um plano B...
‘ Roxy diz: Agora temos!
Faltava pouco mais de um dia para o baile e o plano das garotas havia sofrido um pequeno deslize. Elas precisavam renovar. Elas necessitavam de um segundo plano. Um plano B.
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